Njinga Mbandi: A Rainha Guerreira de Angola

By Éden António

A revolta tem nome

Em África havia um mistério. Guardado como se guardam as sementes em tempo de seca, passado de mestre a discípulo, longe do olhar de quem só sabe medir o mundo pelo que consegue conquistar. Era ciência de guerra e ciência do espírito, e ninguém a aprendia à luz do dia.

Os homens que chegaram do mar não o viam. Olhavam para as terras do Ndongo e viam riqueza. Olhavam para o povo e viam obediência. Olhavam para uma mulher e viam apenas uma mulher. A arrogância é a cegueira mais cara que existe, e eles pagaram-na durante décadas.

Conta-se que os mestres foram caindo, um a um, como cães. O irmão mandou matar o filho dela. O povo era vendido, queimado, disperso. E Njinga, que sabia ouvir, sorrir e calar, percebeu o que o silêncio já lhe dizia há muito: o seu tempo tinha chegado.

Não foi só estratégia. Foi dor. Foi a dor de uma mãe, de uma filha e de uma rainha, transformada em doutrina.

A revolta tem nome. E o nome dela é Njinga Mbandi.

O mistério guardado

Toda a estratégia bem construída nasce de milhões de conselhos, pensamentos e planos. Mas também da astúcia e da observação do comportamento humano. E isso demora. Estuda-se, simula-se e amadurece como o vinho nobre. As forças humanas têm muitas limitações e, para vencer, é preciso mudar a forma de pensar, de viver e de atuar, como o leão que não teme ninguém. O oculto tem de estar do nosso lado, e isso não se aprende na escola, nem numa universidade americana por mais cara que seja.

Num continente africano, no sul, havia um reino poderoso chamado Congo, altamente respeitado, que ofuscava muitos outros reinos e reis. Mas longe do mar e da beleza da costa atlântica, no interior, onde estão as montanhas das pedras negras e longe do olhar humano, existiam o Ndongo e a Matamba. Reinos organizados, constituídos e estruturados para proteger as riquezas e garantir a sobrevivência do seu povo e da sua cultura. As suas raízes eram profundas e não se podiam medir.

E não se engane, caro leitor: em África existiram milhares de reinos como estes, e eles não viviam isolados. Os soberanos trocavam mensageiros, comerciantes, filhas e filhos em casamentos que selavam alianças. Com os casamentos viajavam os saberes. E um copeiro nunca foi um mero servente. Era os ouvidos, os olhos e muitas vezes o embaixador do rei: um diplomata e um agente secreto bem treinado, escolhido a dedo. Tinha de conhecer os vinhos, os fornecedores, o mel, o queijo, o leite. Tinha de gerir a logística alimentar do rei e perceber o veneno pelo cheiro, para sobreviver. Sabia estar no palácio, ser discreto, e saber quando falar, ouvir e calar.

Quem percorreu Angola, a Namíbia e a África do Sul sabe que o corpo africano guarda uma ciência de combate antiga. O engolo no sul de Angola, a luta de bastões dos povos nguni mais abaixo, e, noutras terras do continente, o dambe, o laamb, o tahtib e o shotel. São artes que combinam defesa pessoal, ritual espiritual, música, dança e celebração comunitária. Muitas delas atravessaram o Atlântico na memória dos escravizados e vivem ainda nas lutas das Américas. É razoável pensar que estes saberes viajavam com os reis, as filhas dos reis e os seus mestres. Treinava-se como quem dança, e essa dança representava a morte para os invasores.

A formação de uma leoa

Assim foi preparada Njinga Mbandi, filha do rei Ngola Kiluanje Kia Samba, nascida em 1583. Diante do rei, era uma princesa diplomata, que sabia ouvir, sorrir com doçura e encantar parceiros políticos ou inimigos. No campo de batalha, era uma leoa sem misericórdia.

Ela conhecia bem o caráter humano e estudava o comportamento do adversário com os melhores mestres do reino. Foi formada em segredo, numa ciência de guerra e de espírito que a História oficial nunca registou. Os missionários europeus que a conheceram descreveram-na a consultar os antepassados e a presidir a rituais, e usavam a palavra bruxaria para a desacreditar. Chamemos-lhe pelo nome certo: autoridade espiritual, a ciência dos antepassados. Depois, aprendeu a língua dos portugueses, estudou a sua fé e foi batizada. Njinga aprendia tudo. Quem aprende tudo sabe sempre mais do que aquele que o subestima.

A cadeira

Em 1622, o rei Ngola Mbandi, seu irmão, enviou-a a Luanda para negociar a paz com o governador português. Ela entrou na sala e viu o que lhe tinham preparado: uma só cadeira, a do governador, e para ela, uma esteira no chão. Um recado claro sobre quem era superior.

Njinga não discutiu. Fez um gesto, e uma das suas servas ajoelhou-se, de mãos e joelhos no chão. Njinga sentou-se sobre as costas dela e negociou, de igual para igual, durante toda a audiência. Naquele dia, Portugal aprendeu que não era uma mulher que tinha diante de si. Era uma estratégia de pé, ou melhor, sentada.

Nesse mesmo ano, foi batizada como Dona Ana de Sousa. Anos depois, quando isso já não lhe servia, soube voltar às raízes. A fé, para ela, era também uma arma diplomática.

A traição

Mas antes da glória, veio a traição. O irmão, Ngola Mbandi, temendo que o povo a preferisse a ele, e sabendo que o povo a seguiria a ela ou ao seu filho, mandou matar o único filho de Njinga, para cortar a linha de sucessão. Quando morreu, em 1624, ela assumiu o trono. Os portugueses não aceitaram que uma mulher governasse o Ndongo, instalaram um rei que lhes obedecia e forçaram-na a recuar.

Njinga nunca perdeu o Ndongo no coração do seu povo. Perdeu-o no trono. Refugiou-se a leste, conquistou a Matamba e fez dela a base para sustentar a luta e voltar a reclamar o que era seu por direito e pela vontade de quem a seguia. Durante décadas, assinou a correspondência como rainha do Ndongo e da Matamba. Nunca aceitou a perda.

A arrogância do invasor

Para compreendermos a força de Njinga, precisamos de recuar no tempo. Em 1482, o capitão Diogo Cão chegou à foz do rio Zaire e estabeleceu relações com o reino do Congo. Os africanos recebem as visitas como presentes e festas, e naquela época não era diferente. Os soldados da coroa, que nem sempre comiam como reis, foram recebidos com fartura: as bananas grandes e saborosas, o abacaxi cheiroso cor de laranja, a melancia, a ginguba, o maruvo e a água de coco que a maioria dos europeus nunca provara.

E o que fizeram eles com tanta generosidade? Olharam para a abundância e pensaram em quanto tempo precisavam para a tomar. Convenceram o rei do Congo de que o branco era superior. Converteram o reino. Instalaram-se. Fundaram Luanda em 1576 e iniciaram uma escalada sobre um território muito maior do que o seu pequeno Portugal, que nunca foi um reino rico, mas que dominava o mar como ninguém.

E como venceu um país pequeno um território tão vasto? Com uma arma que Njinga conhecia de cor. Criavam guerras entre os locais, armavam uns contra outros e, no fim, quando as mortes e a destruição já tinham desgastado o povo, vinham os colonos e terminavam o trabalho sujo. As suas tropas eram poucas centenas de europeus, e a maior parte dos combatentes que lutavam do lado português eram africanos. A doença, a malária e a febre também matavam europeus em número que nenhum mosquete resolvia.

Eles viram uma mulher e subestimaram-na. Muitas vezes, por causa do nosso nós, julgamos que somos o que não somos. Avaliamos a força e a capacidade a partir da incapacidade alheia, e nunca pelo espírito, pelo que o outro carrega no seu interior: o conhecimento.

O grito que ecoou na Europa

Njinga usou a técnica colonial ao contrário. Se os europeus faziam africanos lutarem entre si, ela faria os europeus lutarem entre si. Em 1641, os holandeses capturaram Luanda, e Njinga selou uma aliança com eles. Imagine o que isso significava naquela época. Durante sete anos, os portugueses ficaram confinados à região de Massangano. Uma mulher africana fez recuar os melhores soldados da Europa. Que escândalo na corte! Como reagiu o rei de Portugal e os seus aliados?

Não foi uma vitória total, e é mais verdadeira por isso. Em 1648, os portugueses retomaram Luanda e os holandeses partiram. Njinga viu as suas irmãs caírem em cativeiro, e uma delas morrer afogada às mãos dos captores. Retirou-se, reorganizou-se, voltou a lutar. Ela não expulsou Portugal de Angola. Fez algo mais difícil: nunca se deixou vencer.

Em 1656, aos setenta e tantos anos, impôs a Portugal um tratado de paz e o reconhecimento de Matamba como reino independente. Matamba tornou-se um reino cristão, em correspondência com Roma. Quem pensaria nisto, em 1622, na sala da cadeira?

O legado imortal

Njinga morreu em 1663, aos oitenta e um anos. Morreu de velhice. Não foi capturada nem enjaulada. Treinou guerreiros e inspirou milhares.

Conta a memória do povo que as línguas locais foram proibidas, que o ajuntamento era vigiado, porque os colonos temiam que o espírito dela ainda andasse por ali. E andava. Os que foram levados para o Brasil levaram consigo os saberes aprendidos, e Njinga ficou. Vive no congado, onde ainda hoje se coroa a Rainha Ginga. Vive no gingado do engolo, que muitos reconhecem como raiz da capoeira. Em Angola, é símbolo da resistência africana contra a colonização e inspiração para gerações de mulheres.

A semente que atravessou o Atlântico

A história de Njinga não termina no Brasil. Atravessou o Atlântico até à América do Norte. Em agosto de 1619, um navio inglês, o White Lion, capturou um navio negreiro português, o São João Bautista, que transportava africanos escravizados do reino do Ndongo, o mesmo reino de Njinga, nas guerras que então devastavam aquelas terras. O White Lion aportou em Point Comfort, na Virgínia, e ali trocou entre vinte e trinta angolanos por mantimentos. Foram os primeiros africanos a chegar à Virgínia inglesa, o início de uma história que haveria de dar forma aos Estados Unidos.

Aquelas pessoas não chegaram de mãos vazias. Trouxeram o conhecimento agrícola, a metalurgia, as línguas e a fé. Trouxeram a música e a dança. Os povos da região de Angola e do Kongo deixaram marcas fundas na cultura negra americana, desde a música às formas de resistência. Quando, em 1739, os kongoleses se levantaram em Stono, na Carolina do Sul, estavam a carregar uma tradição guerreira de que Njinga fora uma das maiores expressões.

Há ainda uma ressonância que vale a pena escutar. Em Angola, Kwanza é rio, é moeda, é província, é nome de casas e empresas, e para muitos de nós é palavra de prosperidade. Em 1966, Maulana Karenga criou o Kwanzaa, a celebração afro-americana que, entre 26 de dezembro e 1 de janeiro, honra a herança africana. O nome vem do suaíli matunda ya kwanza, os primeiros frutos. São palavras de origens distintas, que o Atlântico quis aproximar. Quem escuta com atenção ouve nelas o mesmo apelo: prosperar sem esquecer de onde se veio.

A revolta tem nome

Njinga não foi a primeira rainha guerreira de África, e ninguém saberá dizer quem foi. Foi uma das maiores, e talvez a mais bem documentada, de uma linhagem que a memória oral guardou e que os arquivos nunca conseguiram contar por inteiro. Antes dela houve Amina de Zazzau, e antes ainda as candaces de Kush e Meroé. Depois dela viriam as guerreiras do Daomé. A África sempre teve leoas.

A força de Njinga não estava apenas na espada. Estava na capacidade de ler o adversário, de usar as suas próprias armas contra ele e de nunca, jamais, aceitar a subserviência. Ela não esperou que a História a lembrasse. Construiu a sua própria lenda, tijolo a tijolo, batalha a batalha, negociação a negociação. E é por isso que, séculos depois, o seu nome ainda faz tremer os que tentam subestimar a força de uma mulher determinada.

O mistério foi guardado durante séculos. A arrogância dos homens fê-lo despertar.

A revolta tem nome. E o nome dela é Njinga Mbandi.

Massambala Media
Massambala Media

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *