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Por Éden António · Massambala Media
Há países que se explicam com números e há países que se explicam com silêncio. A Namíbia pertence ao segundo grupo. É um território vasto, de céus imensos, onde o deserto encontra o oceano e onde cerca de três milhões de pessoas vivem numa terra que daria para muitas mais. E é precisamente nesse silêncio que, desde 21 de Março de 2025, ecoa uma voz nova: a de Netumbo Nandi-Ndaitwah, a primeira mulher a presidir à Namíbia.
Nascida em 1952, em Onamutai, Netumbo cresceu num país que ainda não era país. Juntou-se ao movimento de libertação contra o apartheid sul-africano quase seis décadas antes de chegar à mais alta magistratura da nação. Foi ministra em várias pastas, entre elas a do Ambiente e Turismo (2005–2010), vice-primeira-ministra, ministra das Relações Internacionais e, em 2024, vice-presidente. Em Novembro desse ano, aos 72 anos, venceu as presidenciais com cerca de 57% dos votos. Tomou posse a 21 de Março de 2025, no dia em que a Namíbia celebrava 35 anos de independência.
Há uma beleza quase bíblica nisto. Num tempo que idolatra a pressa e a juventude, ela lembra-nos que existem vocações que amadurecem devagar. Muitos desistiram a meio do caminho; ela permaneceu. Em 2026, a revista Time incluiu-a na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo. Os namibianos tratam-na por «NNN», mas o seu estilo não é o do estrondo: é o da disciplina, do método, da conformidade. É a rainha da ordem num continente que tantas vezes pagou caro pela desordem.
A Namíbia descobriu petróleo. Ainda não o tem nos tanques: as descobertas de Venus (TotalEnergies) e de Graff (Shell), na bacia de Orange, ao largo da costa, caminham para a decisão final de investimento e a primeira produção é esperada para o final desta década. Mas a sua simples existência já mudou a conversa nacional. A pergunta deixou de ser «haverá petróleo?» e passou a ser «para quem será o petróleo?».
Esta é uma pergunta que Angola e a Nigéria conhecem pelas feridas: países abençoados no subsolo, onde demasiadas vezes o povo à superfície continuou à espera. A Namíbia diz querer trilhar outro caminho. Em Agosto de 2026, o Conselho de Ministros aprovou uma política de conteúdo local para o sector petrolífero, com o objectivo de manter contratos, empregos e competências, tanto quanto possível, nas mãos de namibianos. Sejamos honestos: é ainda uma política e não uma lei, e os analistas notam que não fixa percentagens. O desafio não é escrever bons documentos, é cumpri-los. A diferença entre bênção e maldição dos recursos não está no poço; está na governação. Como ensina o livro dos Provérbios, os planos falham onde falta conselho (Pv 15:22), e o conselho, em democracia, chama-se transparência.
Se o petróleo é a promessa, a diplomacia é o método. Com o Botswana, depois de uma visita de trabalho em Maio, a Presidente acordou avaliar a viabilidade de uma refinaria conjunta que sirva os dois países e a região, ao mesmo tempo que ambos reforçam o corredor Walvis Bay–Kazungula, que liga o Atlântico ao interior do continente, passando pela Zâmbia e chegando à República Democrática do Congo. É aqui que a Zâmbia e o Botswana se tornam trunfos: a Namíbia tem o porto e o mar; eles têm os mercados e a profundidade continental. Juntos, fazem uma geografia de prosperidade.
A 19 de Outubro, numa visita de Estado a Luanda, em que foram assinados oito acordos de cooperação, o Presidente João Lourenço convidou a Namíbia a tornar-se accionista da refinaria do Lobito, na província de Benguela, projectada para processar 200 mil barris por dia. Convites semelhantes foram dirigidos ao Botswana e à Zâmbia. A resposta de Windhoek foi prudente: o porta-voz presidencial falou em precipitação e disse que o país deve primeiro testar os seus interesses. A prudência também é uma forma de soberania.
E os Estados Unidos? Circulou nas redes a história de que a Presidente teria mandado deportar 500 americanos em resposta a Donald Trump. É falso: foi desmentido por vários verificadores de factos, e a exigência de visto a países que não dão reciprocidade aos namibianos vinha de trás. A verdade é menos épica e mais inteligente. Nandi-Ndaitwah afirmou que a Namíbia consegue manter os seus programas de saúde sem a USAID, pediu uma resposta equilibrada às tarifas americanas no seio da união aduaneira da África Austral e continua a cultivar relações com Pequim, Bruxelas, Moscovo e Washington. Não se curva, mas também não grita. Há uma dignidade enorme em quem não precisa de fazer barulho para ser respeitado.
Um bom retrato não esconde as rugas. A Namíbia tem uma das constituições mais admiradas da África independente, nascida em 1990, com direitos fundamentais sólidos e separação de poderes. No entanto, a economia cresceu apenas 1,7% em 2025 e o desemprego jovem é dos mais altos da região. A pobreza e a desigualdade pesam. A COVID-19 feriu o turismo, uma das artérias do país, e o VIH/SIDA continua a ser um adversário que exige vigilância, sobretudo agora que a ajuda externa encolheu.
Ainda assim, a Namíbia continua a ser um dos melhores países de África para se viver. Digo-o com a autoridade de quem lá passou mais de doze anos: estabilidade, paz, instituições que funcionam e um povo simples, que trabalha duro e sem alarido. Essa é a verdadeira riqueza que nenhuma sonda offshore pode descobrir.
A Namíbia tem cerca de dois terços do tamanho de Angola e uma das menores densidades populacionais do planeta. Pouca gente, pouca água, pouca energia. E, no entanto, é um gigante. Tem as dunas rubras de Sossusvlei, a Costa dos Esqueletos, o parque de Etosha com os seus elefantes, leões e rinocerontes, o cânion do Fish River, o oceano a bater contra a areia em Swakopmund. Tem diamantes e é um dos maiores produtores mundiais de urânio. Tem gado de altíssima qualidade, um sol fortíssimo que é energia à espera de ser colhida e noites tão limpas que o país abriga uma reserva internacional de céu escuro.
É aqui que a ambição de fazer do deserto um «pequeno Dubai» ganha sentido, desde que bem lida. O segredo do Dubai nunca foi o betão: foi a logística, a confiança, a diversificação e o turismo de luxo. A Namíbia já tem o porto de Walvis Bay, a estabilidade, o prestígio ambiental (foi dos primeiros países do mundo a inscrever a protecção do ambiente na Constituição) e uma Presidente que foi ministra do Ambiente e Turismo. Falta transformar a vocação em plano, e o plano em emprego.
Não admira que o mundo das celebridades a tenha descoberto há muito. Angelina Jolie e Brad Pitt fizeram da Namíbia quase uma segunda casa: a filha Shiloh nasceu lá, em 2006, e no Natal de 2010 o casal regressou com os seis filhos e doou dois milhões de dólares ao santuário de vida selvagem Naankuse, em nome da filha, para que ela crescesse a conhecer o país onde nasceu. As figuras públicas procuram na Namíbia o que raramente encontram em casa: segurança, privacidade, natureza intacta.
E há o Rei da Pop. Em Maio de 1998, Michael Jackson aterrou em Windhoek para participar no fórum económico da África Austral, ao lado de líderes africanos, num apelo ao alívio da dívida e a uma nova era para a região mais pobre do mundo, sobretudo para as crianças. A recepção foi tão tumultuosa que apanhou a polícia de surpresa e obrigou a cancelar vários eventos públicos. Mais tarde, a Namíbia chegou a dedicar-lhe uma exposição fotográfica no Centro Cultural Franco-Namibiano. O maior artista do planeta veio à Namíbia, não para fugir do mundo, mas para falar de investimento e de futuro, e isso diz muito sobre o lugar que o país já ocupava nas conversas sérias sobre África.
E há Hollywood. O deserto namibiano é um estúdio a céu aberto. Flight of the Phoenix (2004), com Dennis Quaid, foi o primeiro grande filme de Hollywood rodado inteiramente no país, à volta de Swakopmund, e as dunas fizeram de Gobi. Jennifer Lopez entrou nos sonhos surreais de The Cell (2000) com Sossusvlei como cenário. Beyond Borders (2003), com Angelina Jolie, também passou pela Namíbia. Tom Cruise agradeceu publicamente ao povo namibiano pela experiência de filmar The Mummy (2017) no país. E em 2021 Will Smith chegou a Windhoek para dez dias a filmar um documentário de natureza. Quando tantos realizadores escolhem o mesmo deserto para contar histórias de outros mundos, é porque a Namíbia não é um país qualquer: é um lugar único.
Quando um homem habituado a velocidades vertiginosas escolhe o deserto para abrandar, vale a pena prestar atenção. Em Agosto de 2022, durante a pausa de Verão da Fórmula 1, Lewis Hamilton fez da Namíbia a primeira paragem de uma viagem em busca das suas raízes africanas. Voou até Sossusvlei, sobrevoou o Namibe de balão e partilhou com milhões de seguidores que aquele era, nas suas palavras, «um dos lugares mais deslumbrantes que alguma vez viu com os próprios olhos». Numa outra mensagem, escreveu que não imaginava melhor sítio para passar aquela folga. Sentiu-se reequilibrado e, semanas depois, dizia-se «transformado» pela experiência africana.
Quero ser rigoroso: não vou pôr na boca de Hamilton palavras que ele não disse. O que importa é o que fez e o que ficou registado. Um dos desportistas mais famosos do planeta, que pode ir para onde quiser, escolheu a Namíbia para se silenciar e reencontrar. O Ministério do Ambiente e Turismo agradeceu publicamente a visita, consciente de que uma fotografia ao nascer do sol sobre as dunas vale mais do que mil campanhas. É o chamado «poder brando»: a Namíbia não precisa de gritar; basta mostrar-se.
Há ainda um simbolismo que me toca como africano. Hamilton viajou à procura das raízes. A Namíbia, de certa forma, é um convite a todos os filhos do continente e da diáspora: venham ver como é um país que se ergueu da opressão do apartheid sem perder a ternura.
Primeiro, pela natureza. Poucos lugares oferecem, num só país, o maior areal vermelho, o oceano gelado, a savana selvagem e o silêncio absoluto. Segundo, pela segurança e pela paz: é um destino estável, onde o viajante circula com tranquilidade. Terceiro, pelas pessoas, acolhedoras, directas e trabalhadoras. Quarto, pelo modelo de turismo comunitário, em que as populações locais participam na gestão da vida selvagem e partilham os benefícios. E quinto, por uma razão que só o tempo explica: visitar a Namíbia é um acto de apoio a um país que está a tentar fazer as coisas de maneira diferente.
Para quem vive em Angola, há ainda a vantagem da vizinhança. Somos irmãos de fronteira, partilhamos história de luta e o convite para a refinaria do Lobito é um sinal de que a próxima fase das nossas relações será económica, e não apenas diplomática. Visitar, investir, trocar experiências: eis o que os bons vizinhos fazem.
A Escritura diz que o deserto florescerá como a rosa (Isaías 35:1). A Namíbia é o lugar onde essa promessa tem endereço. A Presidente Netumbo Nandi-Ndaitwah tem diante de si uma missão difícil: fazer com que o petróleo não seja uma maldição, o turismo não seja apenas para estrangeiros e a diplomacia não seja apenas discurso. Se o conseguir, terá escrito uma lição para todo o continente. E o resto do mundo, com ou sem Hamilton, terá mais um motivo para fazer as malas e ir ver, com os próprios olhos, o deserto a florir.
Consultadas em 1 de Novembro de 2026.
Presidente e política
Petróleo, refinaria e diplomacia
Turismo, celebridades e cinema