A Vitória de Lula sobre o Algoritmo e a Manobra Americana

Por Picanhol Navarro

Jair Bolsonaro é um polvo de tentáculos longos. Se o seu filho tivesse vencido a eleição presidencial no último fim de semana, ele provavelmente se sentiria vingado. A cadeia é um lugar escuro, mas a vingança é um facho de luz que atravessa grades. Não foi uma luta de egos, porém. Foi uma luta entre um gigante antigo — os Estados Unidos —, que tem um plano ambicioso de controlar o mundo, e um velho chamado Lula. O gigante queria terminar o ano com um presente especial: dominar o Brasil. A resposta veio das urnas, e não foi a que o polvo esperava.

Lula é popular, querido pelas massas, mas não muito bem visto pela sociedade média. Ele também não é nenhum santo. Cometeu erros graves, alguns deles imperdoáveis para quem o observa de fora. Mas estava disposto a não vender o seu Brasil, a sua terra. E é aqui que o drama começa.

O gigante precisava de alguém do tamanho de Lula para derrubá-lo. Não bastava um candidato qualquer; era preciso um nome que carregasse o peso de uma biografia, que falasse às massas com a intimidade de quem já foi operário, que tivesse a ousadia de olhar para Washington e dizer não. O gigante encontrou esse alguém no filho do polvo. O herdeiro não é o pai, mas herdou o nome, a máquina e o ódio. E, com ele, veio o aparato: os algoritmos das grandes empresas de tecnologia. A eleição não se travou apenas nas ruas; travou-se nos telefones, nas timelines, nos feeds que decidem o que milhões de pessoas veem e no que acreditam.

O que o gigante não contava era com a teimosia de um velho de quase 81 anos. Lula não venceu apesar do algoritmo; venceu contra ele. Entre o primeiro e o segundo turno, o petista acrescentou mais de 10 milhões de votos, enquanto seu rival ganhou apenas 3,7 milhões. No cômputo final, Lula somou 64,2 milhões de votos (51,79% dos válidos) contra 59,8 milhões de Flávio Bolsonaro (48,21%) — uma diferença de mais de 4,3 milhões de votos. Não foi um passe de mágica. Foi a reinvenção de uma máquina analógica — o PT — em um exército digital, comandado por quem entendeu, antes de todos, que a guerra seria travada nos aplicativos.

O algoritmo não é neutro; ele tem dono, tem endereço e, ao que parece, tem candidato. Especialistas da ONU assinaram uma carta que destacava restrições à liberdade de expressão em plataformas como Instagram, Facebook e WhatsApp durante as eleições de 2026, notando “tratamento desigual do conteúdo de campanha” e que “contas ligadas a um dos candidatos estavam em desvantagem”. A campanha de Lula levou ao Tribunal Superior Eleitoral uma queixa sobre “seletividade algorítmica” após restrições na entrega de postagens nas plataformas da Meta. Do outro lado, a empresa negou favorecimento, alegando que “incidentes técnicos podem ocorrer” e que não há viés político. A verdade é que, num ecossistema digital desenhado para amplificar o que já é popular, o velho Lula teve de remar contra a corrente.

Mas o gigante não jogou apenas com algoritmos. Jogou com a máquina do Estado americano. Funcionários do Departamento de Estado lideraram uma campanha para restaurar o clã Bolsonaro ao poder, instruindo diplomatas no Brasil de que era política oficial dos EUA devolver Jair Bolsonaro à presidência, mesmo depois de ele ter sido condenado a 27 anos de prisão por tramar um golpe. Quando a via eleitoral se tornou inviável para o pai, a máquina americana pivotou para o filho. Sanções, pressão sobre o STF, designação de facções como terroristas: tudo foi tentado para enfraquecer Lula e impulsionar o herdeiro. O gigante não escondeu a mão; apenas vestiu-a com uma luva diplomática.

E aqui entra o dragão. O gigante tinha um parceiro antigo, um dragão que amedrontava toda a vizinhança. No Brasil, diz-se que “o cara botava terror em todo mundo”. Esse dragão não é um país; é uma criatura híbrida, feita de púlpito e de palanque. Para acalmar os ânimos e ganhar popularidade, ele ia à igreja e falava de perdão. Quem o questionasse era tratado como rebelde pelo pastor da igreja e precisava ser afastado. Um maquiavélico religioso, desses que precisam de muita oração, não pela alma, mas pela paciência alheia.

O dragão não tem nome nesta crónica. Tem apenas o peso simbólico de quem trocou o Evangelho pelo palanque e transformou a fé em ferramenta de poder. E o gigante americano, que se diz defensor da liberdade religiosa, encontrou nele o parceiro perfeito. Não vamos acusar ninguém; somos todos falhos, e todos podemos nos arrepender e mudar a forma de pensar. Mas a história que se conta é esta: um púlpito que virou palanque, um altar que virou comício, e uma fé que virou arma.

Lula já tinha prendido o dragão uma vez. Não o dragão de púlpito, que continua solto e vociferante, mas o dragão maior, o polvo, o pai. A prisão de Jair Bolsonaro em novembro de 2025, após a condenação por tentativa de golpe, foi o gesto que selou a inimizade. O gigante nunca perdoou. E, para se vingar, tentou tudo: os algoritmos, as sanções, o candidato-herdeiro, o pastor. Nada funcionou.

A terceira idade que o algoritmo não alcança

Porque Lula procurou e achou o que o gigante jamais pensou ser possível: a terceira idade que não é influenciada pela tecnologia. Aqueles que os especialistas da NSA e da CIA costumam ignorar nos seus relatórios de inteligência. Os analistas passam meses a decifrar tendências nas redes sociais, a mapear bots, a medir o alcance dos influencers, e esquecem-se de que o Brasil tem milhões de pessoas que não vivem no feed. Vivem na praça, na feira, na porta de casa, no rádio de pilha, na novela das nove e na memória.

E os números dão-lhes razão. O número de eleitores brasileiros com mais de 60 anos cresceu 74% desde 2010, representando hoje quase um quarto do eleitorado. Uma pesquisa do instituto Quaest mostrou que 48% dos eleitores mais velhos apoiavam Lula, contra 42% que apoiavam o candidato do gigante. O medo da volta da extrema-direita aumentou em 3 milhões o comparecimento às urnas, com idosos, cadeirantes e jovens que antes não se interessavam por política a entenderem que cada voto importava para proteger a democracia. A “geração Lula”, aqueles que se lembram da melhoria dos padrões de vida durante os seus governos anteriores foi decisiva.

São os que votam com o corpo, com a saudade, com a caderneta do mercadinho. São os que não se deixam levar por um vídeo de quinze segundos, porque já viram demasiado na vida para acreditar em milagres digitais. São os que se lembram de que, no governo do velho, o gás de cozinha cabia no orçamento e o filho podia entrar na universidade. A memória é o algoritmo mais poderoso de todos, e nenhuma plataforma o consegue manipular.

Segundo Snowden, os Estados Unidos vigiavam o Brasil. Escutavam as conversas da presidente Dilma Rousseff, da Petrobras, de altos funcionários do Estado brasileiro. Montaram uma teia de vigilância que faria corar qualquer ditadura de antigamente. Mas tudo isso não foi suficiente para vencer o velho Lula, que conhecia bem a sua gente, o seu povo. A inteligência americana sabia tudo sobre os ministros, os generais, os empresários e nada sobre a dona de casa de Cajazeiras que se lembra de que a vida já foi melhor.

O namorado apaixonado e o abraço que atravessou o sertão

Então Lula correu atrás deles como um namorado apaixonado que não desiste do seu amor. Criou condições para que votassem em segurança, porque votar com medo não é votar, é sobreviver. Viajou até a terra deles, subiu morro, atravessou sertão, entrou em igreja, sentou-se na calçada. Ouviu. Abraçou. E continuou buscando e abraçando o Xingu, o povo preto, o sertanejo pobre sem proteção. O velho não tinha medo de sujar os sapatos; tinha medo, isso sim, de perder o contato com quem lhe deu a vida. Enquanto os estrategistas do gigante desenhavam gráficos no ar-condicionado de Langley, Lula tomava café com farinha no quintal de alguém em Caetés.

E é preciso lembrar: quando a América perseguiu e prendeu o criador do WikiLeaks, foi Lula, através do papa, da diplomacia silenciosa, da insistência teimosa de quem sabe o que é injustiça que lutou pela visita familiar, pelo direito de um filho ver o pai, e influenciou a sua liberdade. Julian Assange, o fundador do WikiLeaks, recordou os 1.901 dias que passou preso e agradeceu publicamente a Lula: “Fora do poder, Lula lutou pela minha liberdade. No poder, Lula discutiu minha perseguição com o Papa Francisco, que decidiu se reunir com minha família e oferecer ajuda”. “Lula foi gentil com meus filhos e não pediu nada em troca”. O velho não fez barulho; fez ponte. E o mundo, que tantas vezes o trata como um político fora de moda, viu que a moda passa e a decência fica.

O polvo do bem e os tentáculos do cuidado

Mas é preciso lembrar também outra coisa, que o Brasil esqueceu: o velho Lula tinha se transformado em um polvo de grandes tentáculos há muito tempo. A diferença é que os seus tentáculos não sufocam — acolhem. Um tentáculo é o Minha Casa Minha Vida, que tirou famílias do chão de barro e lhes deu moradia digna; só em 2026, 127 mil famílias foram atendidas. Outro é o ProUni, o REUNI, as cotas: os filhos dos faxineiros que hoje são doutores, os netos de analfabetos que hoje assinam artigos científicos. Outro é o Bolsa Família, que chegou a 19,9 milhões de famílias em 2026 e não é esmola — é a diferença entre comer e não comer. Outro é o Farmácia Popular, com 27 milhões de beneficiários. Outro é a memória de um país que, por alguns anos, ousou dizer que pobre também tem direito a sonhar.

O pacote de programas sociais em 2026 somou R$ 403,2 bilhões, um esforço gigantesco para um país que ainda carrega cicatrizes profundas. Pode-se discutir se foi ano eleitoral ou se foi convicção; pode-se discutir se o impacto na popularidade foi o esperado. Mas não se pode negar que, para milhões de pessoas, a diferença entre a vida e a sobrevivência passou por esses programas. O polvo do mal tem tentáculos de medo. O polvo do bem tem tentáculos de cuidado. E o gigante, que só sabe ler algoritmos, nunca entendeu isso.

O que fica

O polvo está preso. O dragão ainda cospe fogo, mas está cada vez mais sozinho. O gigante foi derrotado, não por um exército, mas por um velho teimoso e por milhões de pessoas que decidiram que a honra não se sequestra. A vitória de Lula não foi apenas sobre um candidato; foi sobre a tentativa de transformar o Brasil em um quintal.

Às vezes, quando a nossa honra é sequestrada e todos os nossos amigos ficam contra nós por medo, a única saída é ter coragem de dizer não. Lula disse não. Não à venda do Brasil, não à submissão ao gigante, não ao dragão que quer transformar o altar em palanque. E o povo — aquele povo que a sociedade média despreza, que a elite acha que só se importa com futebol e carnaval — respondeu.

Quem semeia o bem colhe muito bem. E o velho, que já foi operário, já foi preso, já foi chamado de tudo, continua semeando. A história não termina aqui; continua nos filhos dos faxineiros que hoje são doutores, nas casas que antes eram barracos, nos abraços que atravessaram o sertão. A vitória de Lula não foi sobre o algoritmo. Foi sobre a memória. Foi sobre a teimosia de um povo que se lembrou de que já foi feliz — e que quer ser feliz outra vez.

E, como toda boa crónica, esta termina com uma pergunta: quantas vezes mais será preciso dizer não, antes que o gigante aprenda que o Brasil não é dele?


Picanhol Navarro escreve crónicas de leitura interessante, com um ligeiro tom de ironia e uma teimosia parecida com a do velho.

Para ir mais fundo: Resultados eleitorais no G1 e no Globo · O peso do voto sénior na Geo News · A espionagem da NSA no New York Times · O apoio de Assange na Revista Fórum · O pacote social no Poder360 · A falta de imparcialidade da Meta na Agência Brasil

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