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A Mulher Que Calou a História e Construiu um Império com Tijolos de Dignidade
Por Picanhol Nabarro
Caros amigos, sentem-se aí que a história é longa e boa. Um dia desses conheci um mais velho como eu, que uma vez me contou uma história incrível dificil de acreditar…
Enquanto esperamos para sermos atendidos no consultório do Dr. António Henriques aquele senhor simpatico fala-me de uma Angola que já não existe ele apresentou-se e disse: Chamo-me Berman. Eu sou inglês, sou judeu e andei pelas picadas e escritórios deste país imenso que aprendi a amar como meu. Mas esta história não é sobre mim. Não, senhor. Esta história pertence à mulher que transformou o meu apelido num sinónimo de abrigo. Esta é a história da minha eterna companheira, a minha querida Madame Berman. E não pensem que vos vou contar uma lenga-lenga de saudade. Não. Eu vou contar uma grande história que é uma aula magna de estratégia, negócios e storytelling. É a prova viva de que quem determinado vai longe, bem longe “alteia” não espera que a media conte a sua vida; constrói o seu próprio império.
Vocês, os jovens de hoje, falam muito dos americanos e até imitam a moda e os truques da cultura deles… então vou vos falar do Maverick Carter, amigo de infância e o sócio do LeBron James, Maverick Carter, o homem que transformou LeBron James de atleta bilionário em magnata global, disse uma vez algo que mudou a forma como penso o legado: “Se fores bom a contar histórias, podes construir algo que realmente importa e falar com a tua audiência de uma forma que realmente importa” . Carter não esperou que a media tradicional contasse a história de LeBron. Ele criou a SpringHill Company e a Uninterrupted para controlar a narrativa .
A minha Madame Berman fez exatamente o mesmo, décadas antes de Maverick Carter nascer. Ela não esperou que Lisboa ou Luanda escrevessem a sua história. Ela construiu-a com as próprias mãos, tijolo a tijolo, casa a casa, vida a vida. Enquanto outros acumulavam fortuna para a ostentação, ela usou a nossa para criar um dos primeiros bairros sociais de Luanda. O nome dela não está nos manuais escolares, mas está gravado na memória de milhares de famílias.
Ela não esperou que o governo a aplaudisse. Ela pegou no dinheiro, na visão e na sua determinção e construiu o seu próprio legado. E é isso que separa os “kamundongos” dos verdadeiros “kotas”.
Para perceberem a dimensão da coisa, temos de recuar a 1926. A Robert Hudson estabeleceu-se em Angola, e eu era o agente oficial. Nós não vendíamos carros; nós vendíamos a possibilidade de rasgar o interior de Angola. Trouxemos a força da Ford Motor Company. Cada camião que saía das nossas oficinas era uma promessa de desenvolvimento.
Foi nessa dinâmica de negócios, onde o “business acumen” britânico se cruzava com a coragem alemã, que conheci a mulher da minha vida. Ela tinha chegado em 1916, uma enfermeira alemã com uma determinação inabalável. Enquanto eu geria os motores na capital, ela desbravava Malanje, Ndalatando e o Sumbe. Juntámos o útil ao agradável. Multiplicámos a fortuna com fazendas agrícolas e com o manganês e ferro nas minas da Quitota, em parceria com os irmãos Lagos. Mas atenção: o dinheiro nunca foi o fim. Foi apenas o combustível.
O meu fascinio e admiração por ela teve um ponto de viragem, o verdadeiro teste de caráter. Em 1939, a Europa incendiou-se com a Segunda Guerra Mundial. O regime nazi caçava os nossos irmãos judeus como animais. Nós estávamos seguros em Angola, com as nossas plantações e o nosso isolamento. Mas a nossa consciência nos dizia que tinhamos de ajudar, conhecíamos os riscos, se fossemos apanhados, nunca mais poderíamos voltar para nossa Angola, mas a nossa conciência não tinha preço.
Fizemos as malas e rumámos a Lisboa. Portugal era um tabuleiro de xadrez de espionagem. Cheio de refugiados e de agentes da Gestapo. Foi aí que montámos a nossa operação. Transformámos os lucros do café e do ferro em passaportes para a vida. Subornámos funcionários, pagámos viagens transatlânticas e falsificámos vistos. Ela, com a sua formação de enfermeira, descia aos abrigos para tratar dos traumatizados que atravessavam os Pirenéus.
Fizemos isto nas sombras, sob risco de morte. Mas há um gatilho mental aqui para vocês, empreendedores: quem salva uma vida, salva o mundo inteiro, mas quem arrisca a sua própria pele para salvar os outros, esse constrói uma imortalidade.
Com o fim da guerra, voltámos a Luanda. A Europa estava em ruínas, mas o coração da minha Madame estava focado na terra que a acolheu. Ela olhava para a periferia da capital e não via apenas pobreza; via seres humanos que mereciam viver com respeito.
Nos anos 50, ela aplicou a nossa fortuna num projeto revolucionário. Comprou terrenos na zona do antigo “Cemitério Novo” (Sant’Ana), junto ao Catetão, e mandou erguer 125 habitações unifamiliares em banda. Casas de alvenaria, com quintal, saneamento e espaço para os putos crescerem. O povo, comovido, batizou aquele pedaço de terra como o “Bairro da Madame Berman”.
Hoje, se passarem por lá, a zona é conhecida como Bairro Popular, no distrito do Neves Bendinha. Mas se falarem com os mais velhos, eles apontam para aquelas ruas e dizem: “Aqui nasceu o Bairro da Madame”. Ela não construiu apenas paredes; ela construiu comunidade. Ela aplicou o verdadeiro Real Estate com alma.
A nossa história não é um caso isolado. Sabiam que Angola esteve para ser a Terra Prometida? Em 1912, a Organização Territorialista Judaica (ITO) debateu no parlamento português o “Plano Angola”, que visava fixar milhares de judeus europeus no Planalto de Benguela para criar colónias agrícolas. A Primeira Guerra travou o projeto, mas muitos vieram por iniciativa própria.
Nomes como Benchimol, Azulay, Cohen e Anahory cruzaram-se com os povos nativos, gerando uma elite mestiça e comercial. Os judeus integraram-se de tal forma que os apelidos passaram a ser puramente angolanos. O testemunho mais pungente está no silêncio das necrópoles do sul: no Cemitério de Benguela e da Catumbela, há sepulturas com lápides em hebraico antigo. No Cemitério de Moçâmedes (Namibe), no meio da poeira do deserto, repousam pioneiros israelitas que ergueram as pescas e o comércio. A identidade judaica faz parte do ADN histórico de Angola, e isso ninguém nos tira.
A minha querida Madame partia todos os anos de navio para a Alemanha, mas o seu coração nunca saía de Luanda. Ela sabia que o verdadeiro luxo não é a ostentação, é a capacidade de transformar a realidade dos outros.
Agora, caro leitor, eis o gatilho mental final que a MbonguaKiadi quer que retenhas: O que é que tu estás a construir?
Quando olhamos para as marcas deixadas pela Robert Hudson, pelas minas da Quitota ou pelas paredes do Bairro Popular, percebemos que as grandes histórias não são feitas de intenções. São feitas de ações. O casal Berman deixou um legado que une Israel, Portugal, Alemanha e Angola num abraço que o tempo não apaga.
Não esperes que a media conte a tua história. A minha Madame Berman não esperou. Ela controlou a narrativa com ações. Construiu o seu império silencioso, não de dinheiro, mas de dignidade.
Se esta história te tocou, não guardes só para ti. Compartilha, comenta e assume a tua própria alteia. Porque, no fim, a história da minha Madame Berman não é sobre o que ela tinha, mas sobre o que ela deu. E é esse o maior ensinamento que deixo: a verdadeira imortalidade está nas vidas que tocamos.
Picanhol Nabarro