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Por Picanhol Nabarro
Mano para um pouco, por favor senta e ouve o que te digo. Dizem nas esquinas da vida e nas páginas polidas das revistas internacionais que a beleza abre muitas portas. Que o “sim” surge mais rápido para quem é mais bonita, para quem tem simetria no rosto, que o mundo se inclina diante de um olhar magnético. Mas eu venho dizer-te, com toda sinceridade e experiência, que quem vive atrás da máscara da perfeição estética conhece o peso do silêncio que se segue ao fechar das luzes. A beleza, tantas vezes invejada, pode ser a mais isoladora das prisões. Ela atrai o olhar, mas raramente captiva a alma. Cria o cenário, mas não escreve o guião de um amor que resista ao cacimbo ou às tempestades do tempo.
Para lá dos privilégios superficiais, a verdadeira jornada humana não se joga no espelho. Joga-se nos bastidores da mente, nos traumas que carregamos e na coragem de despir as expectativas do mundo para aprender, finalmente, a viver. Para compreender que o amor não é um troféu que se exibe, mas um território que se cultiva, precisamos de ouvir as vozes que sangram e se reconstroem por trás das aparências.
Esta é a tapeçaria de três vidas. Três mulheres que, por caminhos distintos, descobriram que a estética é apenas uma moldura e que o quadro da felicidade exige tintas muito mais profundas. Minha irmã presta atenção, porque tu podes ser uma delas.
À primeira vista, o mundo da Neusa parecia perfeito. Tinha uma banga que parava o trânsito na Mutamba. Uma genética generosa deu-lhe traços que muitos classificariam como o padrão ideal de Hollywood. No entanto, a vida amorosa dela era um cemitério de começos fulgurantes e fins azedos.
“Começa sempre da mesma forma,” desabafa a Neusa, sentada numa esplanada na baixa de Luanda, com o olhar perdido no horizonte. “Eles apaixonam-se rápido. Tratam-me como se eu fosse uma joia rara. Eu sinto-me nas nuvens. Penso: ‘Desta vez é que é’. Visto-me com esmero, sou atenciosa. Mas, passados alguns meses, o sabor da relação muda. Fica azedo.”
O drama da Neusa é o drama da projeção. Quando a beleza é o principal cartão de visita, as pessoas apaixonam-se pela imagem, não pela pessoa real. Os parceiros dela não viam as suas dúvidas, os seus medos ou a sua humanidade; viam apenas a moldura estonteante. “Aos poucos,” explica ela, “quando começo a mostrar que também tenho dias maus, que choro, que tenho inseguranças, eles parecem desapontados. É como se eu estivesse a quebrar um contrato invisível de perfeição. O encanto quebra-se e o que era doce transforma-se em cobrança.”

Neusa tentou de tudo. Fez cedências, calou as suas próprias vontades, mudou de postura. Mas o erro não estava na capacidade de amar dela, mas na fundação dessas relações. Ela percebeu, à custa de muitas noites em claro, que a beleza cria uma falsa facilidade no início, mas atrai muitas vezes pessoas imaturas, apenas para o consumo estético. Dar certo com alguém exige que a outra pessoa tenha a maturidade de atravessar a barreira dos olhos e queira habitar o coração, com todas as suas imperfeições. Enquanto o critério de aproximação for apenas o visível, o final será invariavelmente amargo.
Se a história da Neusa é a da procura externa que falha, a da Weza é a do auto-boicote nascido da falta de pertença. A Mariana cresceu à margem dos elogios. Nunca se considerou bonita e a sociedade tratou de lhe recordar durante a adolescência. Ela construiu uma armadura de auto-ssuficiência, convencendo-se de uma mentira dolorosa: que o amor não era para ela. Destinos românticos eram privilégio das Neusas do mundo, não dela.
Até ao dia em que conheceu o Nelson. E pela primeira vez, alguém olhou para ela com uma intensidade e desejo, de um jeito que ela desconhecia. O Nelson não procurava uma modelo de capa de revista; procurava alguém inteligente, com bom humor e a sensibilidade que ela guardava a sete chaves. Ele apaixonou-se de verdade. E foi aí que o inferno pessoal da Weza começou.
“Quando percebi que ele me amava genuinamente, em vez de me sentir segura, entrei em pânico,” recorda. “A minha mente não conseguia processar aquela realidade. A dúvida roubava-me a paz! E a pergunta que não para de me perguntar: como é que alguém como ele pode amar alguém como eu? Em vez de desfrutar, tornei-me possessiva. O medo de o perder era tão avassalador que comecei a sufocá-lo.”
A Weza transformou a relação num campo de inspeção contínua. Cada mensagem atrasada era uma pista de uma possível traição; cada saída com amigos era o prenúncio do abandono. Ela controlava os passos, questionava as intenções e exigia provas constantes de um amor que o Nelson ofereceu de forma espontânea.
“Ele tentou. Deus sabe como ele tentou. Mas a possessividade cansa. Ninguém aguenta viver sob suspeita perpétua. Um dia, ele arrumou as suas malas e foi embora. Disse-me que me amava, mas que precisava de respirar. Eu estraguei tudo. Fui eu que cavei o buraco que tanto temia.”
A história da Weza deixa uma lição indelével, um verdadeiro gatilho mental para quem me lê: a falta de amor-próprio é o veneno mais eficaz contra qualquer relacionamento saudável. Não importa o quão sincero seja o sentimento do outro; se nós não nos acharmos dignos de ser amados, transformaremos o palácio do amor numa prisão de desconfiança, empurrando para fora da nossa vida quem mais nos quer bem.
No extremo oposto destas duas realidades cruzadas pelo sofrimento, encontra-se a Beatriz. A vida dela foi, durante quase quatro décadas, um exercício de cumprimento de guiões alheios. Tinha a beleza que orgulhava a família, o casamento que a sociedade aplaudia e o estatuto que causava inveja nas redes sociais. Tinha tudo, menos a si mesma. Vivia numa letargia dourada, anestesiada pelas aparências.
A mudança não veio com um cataclismo, mas com um espelho de provador de roupa num dia qualquer. “Olhei para mim e não vi ninguém,” conta a Beatriz. “Vi uma mulher bonita, bem vestida, mas com uns olhos completamente vazios. Percebi que andava a gastar a minha energia a manter uma fachada de perfeição para o mundo, enquanto por dentro eu estava morta.”
Nesse dia, a Beatriz tomou a decisão mais escandalosa da sua vida: escolheu ser feliz.
O processo foi doloroso. Envolveu o fim de um matrimónio de fachada, o afastamento de círculos sociais que só valorizavam o verniz exterior e a coragem de assumir as suas próprias escolhas, mesmo que isso significasse a desaprovação dos outros. Ela começou a fazer terapia, a viajar sozinha, a descobrir os seus verdadeiros gostos e a aceitar a vulnerabilidade de não ser perfeita porém humana.
“Quando percebi a importância da felicidade real… aquela que não precisa de filtros no telemóvel nem da aprovação da sociedade, comecei finalmente a viver,” afirma, com um sorriso que emana uma luz que nenhuma maquilhagem consegue replicar. “Deixei de me importar se o meu cabelo estava desalinhado. Descobri que a vida acontece no aqui e no agora, nas ligações profundas, na paz de deitar a cabeça na almofada e não dever nada à mentira.”
A Beatriz compreendeu que a beleza é um recurso efémero, mas a alegria de ser fiel à própria essência é um património inabalável. Ao libertar-se da obrigação de ser uma escrava da perfeição, ela abriu espaço para viver de verdade.
Estas três narrativas, embora corram em direções diferentes, cruzam-se no mesmo diagnóstico: a obsessão pela imagem exterior é a maior distração na busca pelo que realmente confere significado à existência humana.
A Neusa precisava de entender que a sua beleza não devia ser uma moeda de troca para o afeto, mas apenas uma parte irrelevante de quem ela é. O desafio atual dela é desconstruir a própria imagem para permitir que as pessoas se aproximem do seu avesso. A Weza precisa de fazer as pazes com o espelho e com a sua história, percebendo que o valor de um ser humano não se mede pelas regras da estética e que a confiança é o único oxigénio possível para o amor. A Beatriz, por sua vez, tornou-se o farol para ambas: a prova viva de que a ruptura com a ditadura das aparências é o único portal para uma vida autêntica.
A grande lição que emerge destas vivências é clara e serve de alerta para todos nós: a beleza pode, de facto, facilitar o prólogo das histórias, mas nunca dita o desenvolvimento nem garante um final feliz. Quem deposita todas as suas fichas na estética condena-se a viver na superfície de si mesmo, à mercê do olhar alheio. O amor verdadeiro, a estabilidade emocional e a verdadeira vivência só prosperam quando temos a coragem de quebrar o espelho e olhar para dentro nós.
Porque, no fim do dia, quando o chega o cacimbo e molha o nosso rosto a maquilhagem social cai por terra e o que fica não é a forma do nosso rosto verdadeiro que é a qualidade do amor que fomos capazes de dar, receber e, acima de tudo, nutrir por nós mesmos.
E tu? Vais continuar a viver para a moldura, ou vais ter a tusa de pintar o teu próprio quadro?